o que se leu em 2012


ANTÓNIO LOBO ANTUNES que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
ATIQ RAHIMI as mil casas do sonho e do terror
LUÍS SEPÚLVEDA histórias daqui e dali
INÊS PEDROSA fazes-me falta
RITA FERRO os filhos da mãe
MARTA GAUTIER tanto que eu não te disse
MIGUEL SOUSA TAVARES no teu deserto

O que se leu em 2011

GONÇALO CADILHE - áfrica acima
MIA COUTO - terra sonâmbula
MARGARIDA REBELO PINTO - as crónicas da margarida
DEEPAK CHOPRA - buddha
LUIS SEPÚLVEDA - o velho que lia romances de amor
LUIS SEPÚLVEDA - as rosas de atacama
GABRIEL GARCIA MARQUEZ - memórias das minha putas tristes
MIGUEL ESTEVES CARDOSO - os meus problemas
LAURENCE REES - à porta fechada
ZIAUDDIN SARDAR em que acreditam os muçulmanos
JOSÉ LUIS PEIXOTO - uma casa na escuridão
ANTONIO SKÁRMETA - o carteiro de pablo neruda

o que se leu em 2010

MARINA NEMAT - A Prisioneira de Teerão
LUIS SEPÚLVEDA - Patagónia Express
AHMED RASHID - Jihad
GONÇALO CADILHE - Planisfério pessoal
ANTÓNIO LOBO ANTUNES - A ordem natural das coisas
VLADIMIR NOBOKOV - Lolita
BAUDELAIRE - Paraísos artificiais

lolita


Acho melhor descrevê-la, já, para ficar livre disso. A pobre senhora andava pelos trinta e cinco anos, tinha testa luzidia, sobrancelhas depiladas e feições simples, mas não inteiramente destituídas de atractivos (...). Os seus olhos verde-mar, muito afastados um do outro, tinham uma maneira esquisita de percorrer uma pessoa dos pés à cabeça, evitando cuidadosamente o olhar do visado. O seu sorriso limitava-se à contracção irónica de uma sobrancelha. Enquanto falava, esticava o corpo para fora do sofá, como uma mola a desenrolar-se, e estendia espasmodicamente o braço para três cinzeiros e para o guarda-fogo da lareira, onde se encontrava o caroço acastanhado de uma maçã.

vladimir nabokov - lolita

coisas


Não sobrava nenhum pátio nem nenhuma quinta, a casa da Calçada do Tojal desaparecera, uma sucursal de banco erguia-se no lugar da palmeira dos Correios, o jardim dos meus pais transformara-se em fachadas e eu pensei, a pagar a corrida, se levariam o meu caixão no elevador ou aos trambolhões pelas escadas, e ao meter a chave à porta as pernas amoleceram, caí de joelhos no tapete, gatinhei no sentido do telefone que não parava de tocar, levantei o braço para o auscultador, o aparelho despenhou-se à minha frente, um cochicho perguntou se era do talho, animais esfolados dependuravam-se de ganchos, sujeitos de avental, cobertos de crostas de sangue, rasgavam pedaços de carne, a empregada cabo-verdeana surgiu da cozinha de ferro de engomar na mão, a carne amontova-se num prato de balança, quis dizer Liga ao médico depressa e articulei Gillermo Tell Amenaza Al Gobernador, um vento agitou as bétulas no interior do meu peito, o meu marido morto veio do quarto de banho, com uma das bochechas cobertas de sabão de barba e a navalha em riste, a certeza de que me deceparia as carótidas obrigou-me a chorar, a empregada marcava um número por cima dos meus soluços, a carne da balança gotejava-me na nuca, alguém batia no apartamento de baixo e afinal era uma artéria do meu pescoço latindo contra a pele, o meu sobrinho anunciou que pensava ser uma quebra de tensão mas suponha mais prudente refazer os exames, e como estávamos em julho reguei-o a ele e aos irmãos com a mangueira do jardim e os miúdos saltavam de prazer, internaram-me no Hospital da Cuf para estudos e análises, e nessa noite acordei com uma mulher aos gritos, acendi a luz, pedi à enfermeira que me trouxesse um espelho e notei que as minhas narinas se haviam afilado como as dos cadáveres nos esquifes.

das

Tu que cessaste de te deitar com o senhor Esteves desde que a tombose o atacou e se tornou imóvel e sem poder falar, sentado no sofá, o senhor Esteves que te trouxera de Beja quando enviuvou para trabalhares para ele, lhe aqueceres o jantar, lhe limpares o apartamento da Conde de Valbom e ocupares o lado do colchão que a defulta trocara por uma lápide no talhão dos Prazeres, o senhor Esteves que eu conheci ao escoltar-te a buscar a tua mala ao rés-do-chão que habitavas, com a fotografia da finada no oval de crochet, o senhor Esteves, de barba por fazer, que não possuia ninguém senão tu, apertando nos punhos a franja da manta, um homem mais idoso do que eu sou agora, e cujo pescoço eram roscas de pele sumidas no casaco como um cágado se encolhe na sua carapaça, o senhor Esteves com as metades mal ajustadas da face identicas a peças de um puzzle encaixadas à força.

natural

A seguir ao jantar o meu tio levava-me à pastelaria defronte da igreja e eu, com um copo de limonada na mão, assistia à sua conversa com a bronquite dos amigos que cuspiam os pulmões no lenço entre golinhos de café. Os barris de cerveja emitiam suspiram em que a pressão do gás borbulhava. Um grupo de damas pintadas, com brincos de pérolas falsas, compunha as madeixas em torno de um bule de chá, e o meu tio, de cigarro na boca, piscava-lhes o olho a alargar-se, como um pombo nas vastidão do colete.

a ordem

Lisboa, meu amor, eram missas radiofónicas, altarzinhos de Santo António, mendigos e gaitas de beiços de época penosa, cegos encostados aos prédios, cegos de concertina às costas tacteando passeios fora, cegos trágicos à saída dos lausperenes, cegos fadistas acompanhados por espertalhões de patilhas que recebiam as esmolas, cegos ameaçadores que vendiam bugigangas no adro, cegos orgulhosos, que queixo altivo, nos cruzamentos da rua, mulheres cegas, com filhos cegos que não choravam nunca ao colo, cegos bêbados às curvetas entre os palmitos das tabernas, cegos que se suspendiam no ar, como anjos, dependurados dos guarda-chuvas abertos, cegos, pedintes e ciganos em carroças gastas pelos mil caminhos do mundo, em busca de um baldio para a tenda, mas principalmente cegos fitando o nada com a bruma das pupilas, milhares de cegos ocupando os becos, as travessas, os largos, os pátios de casinhas baixas com oficinas de sapateiros e ferradores, cegos a beberem água nos chafariz das mulas, cegos conversando entre si do seu mundo de sombras, cegos, pedintes e ciganos nas quintas do Tojal, roubando o mel das abelhas, legionários e cegos e as damas das pastelarias e policias secretos e os brados dos guerreiros de domingo.

Uma casa na escuridão

Nas semanas seguintes, todas as noites, depois de jantar, a minha mãe deitava-se de lado no sofá grande. Os gatos deitavam-se em cima dela, como um cobertor de gatos de muitas cores a deixar-lhe só a cabeça de fora. A escrava miriam sentava-se no chão com um alguidar cheio de azeitonas retalhadas e outro alguidar vazio. Eu sentava-me à escrivaninha. E a escrava miriam segurava uma azeitona com dois dedos e fazia-a desaparecer nos lábios em forma de azeitona da minha mãe. O pequeno fruto dava-lhe uma volta na boca, e o caroço era cuspido na mão da escrava miriam, e fazia toc no fundo do alguidar vazio ou fazia tic quando um monte de caroços cobris já o fundo do alguidar.




José Luís Peixoto

Planisfério para sempre

Sancir oferece-me os seus serviços de guia e motorista. Sancir é o cunhado da irmã do marido da recepcionista do hotel. Está desempregado e fazia-lhe jeito o frete. Desculpa-se que não fala inglês, mas é melhor assim. Sancir não tem os dentes da frente e de cada vez que fala salta-lhe um dilúvio de perdigotos da ranhura.


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Gonçalo Cadilhe - planisfério pessoal

patagónia express

O velho mastigava com disciplina macrobiótica. Algumas gotas de suco tentavam escapar pelas comissuras dos seus lábios, mas a língua actuava com velocidade implacável. Depois de mastigar conscienciosamente, fazia descer o bolo alimentar com vinho abundante.

Luis Sepúlveda


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A prisioneira de Evin

A rua pavimentada, de quatro faixas, fervilhava de trânsito durante a hora de ponta e o ar cheirava ao fumo dos escapes. Do outro lado da rua, Hassan Agha, o vendedor que tinha apenas um braço, vendia ameixas verdes ácidas na primavera, pêssegos e alperces no verão, beterrabas estufadas no outono, e oferecia diferentes tipos de biscoitos no inverno. Eu adorava as beterrabas estufadas - fervilhavam lentamente numa frigideira grande e baixa sobre as chamas de um fogão portátil, e o seu molho pegajoso borbulhava e fumegava, tornando o ar adocicado. Na outra esquina do cruzamento, um velhote cego com um fato gasto e sujo erguia a mão ossuda aos transeuntes e gritava de manhã à noite: "ajudem-me, por amor de deus".

Marina Nemat - A Prisioneira de Teerão
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o que se leu em 2009

JOSÉ CARDOSO PIRES - balada da praia dos cães
JOSÉ SARAMAGO - ensaio sobre a cegueira
MIGUEL ESTEVES CARDOSO - a causa das coisas
JOSÉ SARAMAGO - jangada de pedra
MIGUEL TORGA - bichos
ANTÓNIO LOBO ANTUNES - os cús de judas
ARUNDHATI ROY - o fim da imaginação
ARUNDHATI ROY - pelo bem comum
ARUNDHATI ROY - o deus das pequenas coisas
WILLIAM BURROUGHTS - junkie
ANNE FRANK - o diário
JASVINDER SANGHERA - banida
MIA COUTO - venenos de deus, remédios do diabo
KAFKA - o processo
PAULO COELHO - as valquírias
PAUL AUSTER - leviathan
ARAVIND ADIGA - the white tiger
JOSÉ SARAMAGO - as intermitências da morte
LAURENCE REES - auschwitz, os nazis e a solução final
MILAN KUNDERA - a insustentável leveza do ser

Tigre Branco

alguns excertos..

(...)
E a nossa nação, apesar de não ter água potável, nem electricidade, nem sistema de esgotos, nem transportes públicos, nem regras de higiene, nem disciplina nem boas maneiras, nem pontualidade, verdade seja dita que empresários não lhe faltam. São aos milhares. Sobretudo na área da tecnologia. E foram estes mesmos empresários - nós, empresários - que implantaram todas as empresas de subcontratação que agora praticamente governam a América.
(...)
Sr. Jiabao, eu aconselho-o a não mergulhar no Ganges, a menos que queira ficar com a boca cheia de fezes, de palha, de bocados encharcados de cadáveres humanos, de carne putrefacta de búfalo, para além de sete tipos diferentes de ácidos industriais.
(...)
A honestidade dos empregados é a base de toda e ecónomia indiana.
O grande galinheiro indiano. Terá a China alguma coisa que se assemelhe?
(...)
Terá de vir até nós e ver com os seus próprios olhos para acreditar. Todos os dias, milhões de pessoas acordam de madrugada, enfiam-se em autocarros imundos e apinhados de gente, chegam às casas elegantes dos seus patrões, e limpam-lhes o chão, lavam-lhes a louça, tratam-lhes do jardim, alimentam-lhes os filhos, massajam-lhes os pés - tudo isto a troco de um salário de miséria. Nunca haverei de invejar os ricos da América ou da Inglaterra, sr. Jiabao: lá eles não têm criados. Nem sequer lhes passa pela cabeça o que é a boa vida.
(...)

O tigre Branco
Aravind Adiga


As Minhas Leituras.. 2009



Milan Kundera - A insustentável leveza do ser (jan09)


Inês Pedrosa - Fazes-me falta (jan09)


Rodrigues Guedes Carvalho - Casa quieta (fev09)


Gabriel Garcia Marques - Memória das minhas putas tristes (fev09)


Mia Couto - Venenos de deus, remédios do diabo (fev09)


Paulo Coelho - Valquirias (mar09)


Gabriel Garcia Marques - Horas más (mar09)


Miguel Torga - Os bichos (abr09)


Patrick Süskind - O perfume (abr09)

Dan Brown - O código da vinci (mai09)

Miguel Torga - Os contos da montanha (jun09)

John Steinbeck - A um deus desconhecido (jun09)

Jasvinder Sanghera - Banida (jul09)

Miguel Esteves Cardoso - O amor é fodido (jul09)

Mia Couto - Terra sonâmbula (ago09)

Aravind Adiga - O tigre branco (out09)

José Rodrigues dos Santos - O sétimo selo (dez09)


Auschwitz


"Quando desembarcámos, deparámos com uma situação do mais horrendo que se possa conceber: centenas de corpos espalhados por toda a parte. Pilhas de trouxas, roupas, malas de viagem, tudo misturado. Os soldados das SS e os ucranianos encontravam-se a postos nos telhados dos barracões, disparando indiscriminadamente sobre a multidão. Os homens, as mulheres e as crianças caíam a sangrar. O ar era atravessados pelos gritos lancinantes e pelo choro das pessoas." - Oskar Berger

"O campo principal de Auschwitz era como uma pequena cidade, com a sua habitual mexeriquice. Havia até uma venda de hortaliças. Também havia uma cantina, um cinema e um teatro em que se representavam peças com regularidade. E tinhamos um clube desportivo de que eu era sócio. Organizávamos bailes - tudo muito divertido e que nos mantinha entretidos" - Oskar Gröning

Auschwitz
Laurence Rees

iNtErMiTêNcIaS

No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes de história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.

Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem de ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia.

As intermitências da morte

José Saramago


O amor é fodido!


O amor é fodido. hei-de acreditar sempre nisto. onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido (…) e por que é que fodemos o amor? porque não resistimos. é do mal que nos faz. parece estar mesmo a pedir. de resto, ninguém suporta viver num amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. tem de haver escombros. tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. e um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.” [...]
“precisava de fugir. era uma necessidade constante. se não fosse o amor, de que poderíamos escrever ou fugir?! eu escrevia-te mentiras que eram quase verdade: que queria fugir para dentro de ti, invadir-te com fúria de te ver ininterruptamente, de não conseguir impedir-me de ficar ali parado a olhar para ti. tu fazias pior. ficavas calada e deixavas-te invadir. atiravas os pulsos para as almofadas antes de eu poder fingir que tos ia prender. mas era bom. nota: era melhor assim. o amor é fodido. nunca sabemos se estamos a dar ou a receber. os teus poemas também eram ricos. transcrevo um de memória, para gáudio de quem nos estiver a ler: «a quem, a quem hei-de-me dar; eu que já soube o que dava e agora não sei mais nada? a quem hei-de dar a verdade que guardo tão mal, tal é o mal que ele me faz: dar-me vida e nada mais.»
escrevemos coisas parvas, perguntas já previamente concebidas para obter respostas rápidas.”


Miguel Esteves Cardoso


Memória..

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
- Hoje sim.
Ela suspirou: - Ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis.(...)
No dia dos meus noventa anos tinha acordado, como sempre, às cinco da manhã. O meu único compromisso, por ser sexta-feira, era escrever a crónica assinada que é publicada aos domingos em El Diario de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: doíam-me os ossos desde madrugada, ardia-me o cu, e havia trovões de tempestade depois de três meses de seca. Tomei banho enquanto o café fazia, bebi uma chávena adoçado com mel de abelhas e acompanhado com dois bolos de cassabe e vesti o fato-macaco de pano de estar por casa.

Memória das Minhas Putas Tristes
Gabriel Garcia Marquez

Mia

O anfitrião levantou-se e chama pela mulher. Reconhecer que os seus poderes são limitados o tornou tenso, precisa de se reabasteer de álcool. O médico faz tensão de se erguer e reencher o copo para o dono da casa, mas este ordena que se detenha. A esposa estava certamente acordada e cumpriria a sua obrigação.

- Parece-me que a Dona Esposinha já adormeceu…

- Ela acorda, ela acorda – e o homem grita num tom marcial: - Esposinha!

Silêncio. A casa dorme. Sue celência apoia-se esforçadamente nos joelhos e vai gemendo enquanto se aproxima da mesa. Serve-se generosamente, e mais generosamente ainda, emborca, de uma assentada, um copo inteiro.Volta a encher o copo, ao mesmo tempo que desaperta o cinto e esfrega a barriga deixada a descoberto. Um poderoso arroto mistura-se com a voz e o administrador é forçado a repetir a fala:

- Sabia que eu posso mandá-lo prender?


Venenos de Deus Remédios do Diabo

Mia Couto