
Acho melhor descrevê-la, já, para ficar livre disso. A pobre senhora andava pelos trinta e cinco anos, tinha testa luzidia, sobrancelhas depiladas e feições simples, mas não inteiramente destituídas de atractivos (...). Os seus olhos verde-mar, muito afastados um do outro, tinham uma maneira esquisita de percorrer uma pessoa dos pés à cabeça, evitando cuidadosamente o olhar do visado. O seu sorriso limitava-se à contracção irónica de uma sobrancelha. Enquanto falava, esticava o corpo para fora do sofá, como uma mola a desenrolar-se, e estendia espasmodicamente o braço para três cinzeiros e para o guarda-fogo da lareira, onde se encontrava o caroço acastanhado de uma maçã.
vladimir nabokov - lolita