Respirei fundo para me acalmar. Há várias semanas que queria fazer este telefonema – ansiava pelo som de vozes familiares (…). Queria falar com a minha mãe, escutar a sua voz a vibrar de prazer e alívio quando pronunciasse o meu nome, saber que ela e o pai tinham saudades minhas. (…)
Olhei para o relógio. Pouco passava das sete da tarde. Sabia que a mãe iria estar na cozinha, a cozinhar alguma coisa. Quase conseguia sentir o calor e cheirar a curcuma.
Lucy estaria na sala a ver televisão. Perguntei-me se os professores, na escola, lhe teriam perguntado por mim. E o pai teria ido à fábrica.
Será que contara aos amigos que eu tinha fugido? (…) Tinha pele de galinha e um pingo de suor frio a descer-me pelo meio das costas. O meu coração batia o dobro da velocidade normal, e senti a coragem esvair-se enquanto levantei o auscultador e enfiei as primeiras moedas. A mãe atendeu quase de imediato.
Eu disse: - Mãe, sou eu…
Ela ficou logo transtornada, gritando e chorando do outro lado, e a sua voz que tanto ansiara ouvir era agressiva e estridente.
– O que é que nos fizeste? Como pudeste fazer-nos isto? Envergonhaste-nos. Qual a razão de sofrermos esta desgraça?
Os meus sonhos de uma feliz reunião familiar foram imediatamente estilhaçados. Tinha sido tão estúpida. (…) Do seu ponto de vista, eu conspurcara o nome da família ao fugir com um “chamar”. A minha mãe sempre disse que os “chamars” são a casta mais baixa, as pessoas que recolhem o estrume nos campos;
– Graças a ti, não posso caminhar pelas ruas de Derby; não posso ir ao “gurdwara”, porque as pessoas comentam. As pessoas cospem-me em cima. Houve uma pausa e pensei que ela tinha terminado, mas estava apenas a respirar fundo. – Vais ter aquilo que mereces por teres arruinado a nossa família. Vais ver. Daqui a uns meses, tu e o teu namorado “chamar” vão estar a rolar na sarjeta, que é exactamente aquilo que mereces. Não vais chegar a lado nenhum, nenhum, estás a ouvir? Espero que tenhas uma filha que te faça o mesmo que tu me fizeste, e então saberás o que é ter criado uma prostituta.
Fiquei tão chocada com a sua maldade que comecei a tremer. Não conseguia acreditar que as coisas tinham acabado assim.(…)
- Vive a tua vida, então, e boa sorte. Para nós, é como se estivesses morta! – E, em seguida, desligou o telefone.
JASVINDER SANGHERA - shame (banida)



