Jasvinder Sanghera

Respirei fundo para me acalmar. Há várias semanas que queria fazer este telefonema – ansiava pelo som de vozes familiares (…). Queria falar com a minha mãe, escutar a sua voz a vibrar de prazer e alívio quando pronunciasse o meu nome, saber que ela e o pai tinham saudades minhas. (…)

Olhei para o relógio. Pouco passava das sete da tarde. Sabia que a mãe iria estar na cozinha, a cozinhar alguma coisa. Quase conseguia sentir o calor e cheirar a curcuma.

Lucy estaria na sala a ver televisão. Perguntei-me se os professores, na escola, lhe teriam perguntado por mim. E o pai teria ido à fábrica.

Será que contara aos amigos que eu tinha fugido? (…) Tinha pele de galinha e um pingo de suor frio a descer-me pelo meio das costas. O meu coração batia o dobro da velocidade normal, e senti a coragem esvair-se enquanto levantei o auscultador e enfiei as primeiras moedas. A mãe atendeu quase de imediato.

Eu disse: - Mãe, sou eu…

Ela ficou logo transtornada, gritando e chorando do outro lado, e a sua voz que tanto ansiara ouvir era agressiva e estridente.

– O que é que nos fizeste? Como pudeste fazer-nos isto? Envergonhaste-nos. Qual a razão de sofrermos esta desgraça?

Os meus sonhos de uma feliz reunião familiar foram imediatamente estilhaçados. Tinha sido tão estúpida. (…) Do seu ponto de vista, eu conspurcara o nome da família ao fugir com um “chamar”. A minha mãe sempre disse que os “chamars” são a casta mais baixa, as pessoas que recolhem o estrume nos campos;

– Graças a ti, não posso caminhar pelas ruas de Derby; não posso ir ao “gurdwara”, porque as pessoas comentam. As pessoas cospem-me em cima. Houve uma pausa e pensei que ela tinha terminado, mas estava apenas a respirar fundo. – Vais ter aquilo que mereces por teres arruinado a nossa família. Vais ver. Daqui a uns meses, tu e o teu namorado “chamar” vão estar a rolar na sarjeta, que é exactamente aquilo que mereces. Não vais chegar a lado nenhum, nenhum, estás a ouvir? Espero que tenhas uma filha que te faça o mesmo que tu me fizeste, e então saberás o que é ter criado uma prostituta.

Fiquei tão chocada com a sua maldade que comecei a tremer. Não conseguia acreditar que as coisas tinham acabado assim.(…)

- Vive a tua vida, então, e boa sorte. Para nós, é como se estivesses morta! – E, em seguida, desligou o telefone.


JASVINDER SANGHERA - shame (banida)


Casa Quieta

Quero acreditar que já não estarias em casa por alturas em que cheguei mas não sei dizer. A verdade é que não te procurei. Mais uma vez. Penso que fiz as coisas do costume, penso hoje quando penso nisso que fiz as coisas do costume, terei deixado o sobretudo ao acaso, abri o frigorífico fechei abri uma outra vez, sem saber bem o que procuro, acontece-me quase sempre. As coisas do costume. Vagueei sem saber bem, o sobretudo caído alguém há-de arrumar, tu tratas disso. Do frigorífico abro fecho abro outra vez, quero pouco, não sei que quero, deixei de beber prometi-te acho que te prometi, não sei que beba.


Rodrigo Guedes de Carvalho

Anne Frank


À noite vejo-me sozinha numa masmorra, sem o Papá e a Mamã. Ou vagueio pelas ruas, ou o Anexo está a arder, ou eles vêm no meio da noite para nos levar e eu rastejo desesperadamente para debaixo da cama. Vejo tudo isto como se estivesse realmente a acontecer.


Vagueio de quarto em quarto, subo e desço escadas e sinto-me como um pássaro cujas asas foram arrancadas e que insiste em se lançar contra as grades da sua gaiola escura. “Deixem-me sair, para onde haja ar fresco e risos!”, grita uma voz dentro de mim. Já nem sequer me dou ao trabalho de responder, e deito-me do divã.


Vi-a ali, vestida de farrapos, o rosto magro e fatigado. Olho-me com tamanha tristeza e censura nos olhos enormes, que consegui ler a mensagem neles escrita: _Oh, Anne, porque é que me abandonaste?


Contive as lágrimas enquanto estive com Peter, ri alto com os van Daans enquanto bebíamos ponche de limão e mostrei-me animada e excitada, mas assim que me vi sozinha soube que ia chorar que nem uma perdida. Deslizei para o chão, em camisa de dormir, e comecei por rezar as minhas orações, com muito fervor. Depois encostei os joelhos ao peito, pousei a cabeça nos braços e chorei, toda encolhida no chão frio. Um soluço mais alto trouxe-me de volta à Terra, e controlei as lágrimas, pois não queria que ninguém me ouvisse.


Mais um aniversário que se passou. Agora já tenho quinze anos. Recebi bastantes presentes: o livro de história de arte em cinco volumes de Springer, um conjunto de roupa interior, dois cintos, um lenço, dois frascos de iogurte, um frasco de compota, dois bolinhosde mel (pequenos), um livro de botânica do Papá e da Mamã, uma pulseira de ouro de Margot, uma caderneta dos van Daans, Biomalt e ervilhas-de-cheiro de Dussel, guloseimas de Miep, guloseimas e cadernos de Bep, e o ponto alto do dia: o livro Maria Theresa e três fatias de quijo verdadeiro, de Mr. Kugler. Peter deu-me um ramo encantador de peónias; o pobre rapaz esforçou-se muito para me encontrar um presente, mas acabou por não conseguir.


ANNE FRANK – o diário de anne frank (may09)


O Código Da Vinci

Encontrado morto em circunstâncias misteriosas dentro do museu, Jacques Saunière, o curador do museu do Louvre, em Paris, deixa pistas cifradas que serão seguidas por Langdon e pela criptógrafa Sophie Neveu por toda uma noite em pontos turísticos de Paris e de Londres, como a Igreja de Saint Suplice, a Igreja do Templo, o túmulo de Isaac Newton, a Abadia de Westminster e o próprio Louvre. Assim começa a trama do livro.

Langdon, e Sophie, uma atraente francesinha e neta de Jacques Sauniére, seguem as pistas escondidas por Leonardo da Vinci em algumas de suas obras mais conhecidas, como a Mona Lisa, a primeira versão da Virgem das Rochas, o Homem Vitruviano e A Última Ceia. As indicações os levam ao Priorado de Sião, uma sociedade secreta cuja existência é incerta e que teria tido como grão-mestres o alquimista Nicolas Flamel, o escritor Victor Hugo, o pintor Sandro Botticelli, o físico Isaac Newton, o compositor Claude Debussy e o cineasta Jean Cocteau, além do próprio Leonardo da Vinci.

Os dois transformam-se em suspeitos e em detectives, enquanto percorrem as ruas de Paris e Londres tentando decifrar um intrincado quebra-cabeças que pode lhes revelar um segredo milenar que envolve a Igreja Católica.

Apenas alguns passos à frente das autoridades e de um perigoso assassino, Sophie e Robert precisam pesquisar as pistas ocultas nas obras de Da Vinci que vão desde o sorriso enigmático da Mona Lisa ao significado do Santo Graal.

Para tentar decifrar os mistérios que encontram pela frente os dois detectives improvisados acabam recorrendo a um velho amigo de Robert Langdon, Sir Leigh Teabing, historiador britânico especialista em Santo Graal. Na casa desta figura fantástica Sophie Neveau fica a conhecer a teoria central de toda a trama.

No final do livro, após muitas peripécias e revelações fica-se sabendo que..

E mais não digo ;))



As Intermitências da Morte


No dia seguinte ninguém morreu.

Cansada de ser detestada por toda a gente, a Morte decide suspender as suas actividades e as pessoas param subitamente de morrer.

As pessoas de outros países querem vir para este, onde não se morre, onde a vida será eterna. Há que se cuidar das fronteiras, para que não haja invasão de imigrantes ilegais. Os habitantes do país onde A Morte suspendeu as actividades querem ir para o outro país, onde a vida sempre esta por um fio.

No entanto, passados uns meses a viver nesta situação, a morte, envia uma carta dizendo que a partir da meia-noite desse dia, passariam a ser enviadas cartas de cor violeta com uma semana de antecedência às pessoas que iriam morrer.

Contudo, há uma que teima em não ser entregue e que é sempre devolvida.

Aturdida com tal fenómeno, a morte investiga a vida do violoncelista a quem é suposto a carta ser entregue.

"José Saramago"

Fica então feita a sugestão, caso estejam renitentes em ler este livro façam-no, ler As Intermitências da Morte não é, de modo algum, um desperdício de tempo.



junkie

WILLIAM BURROUGHS

junkie (may09)


Os outros pacientes eram bastante convencionais e metiam dó. Não havia drogados. A única pessoa decente era um bêbado que fora admitido com os queixos partidos e vários ferimentos na cara. Disse-me que todos os hospitais públicos tinham recusado recebê-lo. “Ponha-se a andar daqui para fora. Está a sujar o chão todo de sangue”, tinham-lhe dito no Hospital Charity.