Livros deixados a meio

Pois é, por vezes, deixamo-los a meio...

ROBERT H. HEINLEIN - strange in a strange land
IAN MCEWAN – in between the sheets
JOHN STEINBECK - winter of our discontent
OSCAR WILDE – the picture of dorian gray
J. W. GOETHE - faust
SALMAN RUSHDIE - satanic verses
EÇA DE QUEIRÓS - a cidade e as serras


BASTA PUM BASTA!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, morra! Pim! Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente! Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco! O Dantas é um cigano! O Dantas é meio cigano! O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz! O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas! O Dantas é um habilidoso! O Dantas veste-se mal! O Dantas usa ceroulas de malha! O Dantas especula e inocula os concubinos! O Dantas é Dantas! O Dantas é Júlio! Morra o Dantas, morra! Pim! O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz! E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu! O Dantas é um ciganão! Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro! Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas! Morra o Dantas, morra! Pim!O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever! O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro! O Dantas é um soneto dele-próprio! O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum. O Dantas nu é horroroso! O Dantas cheira mal da boca! Morra o Dantas, morra! Pim! O Dantas é o escárnio da consciência! Se o Dantas é português eu quero ser espanhol! O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa! O Dantas é a meta da decadência mental! E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas! E ainda há quem lhe estenda a mão! E quem lhe lave a roupa! E quem tenha dó do Dantas! E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (...)

José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu
Futurista E Tudo
1915

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

Wendy Wright

Parecia inacreditável que Wendy Wright tivesse nascido de sangue e de órgãos internos como qualquer outro mortal. Junto dela, Joe sentia-se um fedelho atarracado, gordalhufo, a transpirar e sem educação, com o estômago a soltar pequenos arrotos e de respiração pesada. Ao pé dela tomava consciência dos mecanismos físicos que o mantinham vivo dentro de si, maquinaria, tubos e válvulas e compressores de gás e correias de ventoinha, tudo isso tinha de funcionar num esforço perdido, com um trabalho no fim de contas inútil. Ao contemplar aquele rosto descobria que o seu próprio rosto não passava de pobre máscara escaveirada. Ao deliciar os olhos naquele corpo sentia-se um desajeitado brinquedo de corda. Todas aquelas cores possuíam uma harmonia subtil, indirectamente realçada. Os olhos, diamantes verdes e perturbadores, detinham-se impassíveis a tudo. Nunca neles tinha notado uma sombra de medo, nem de aversão, nem de desprezo. Aquilo que ela via, ela o aceitava. Em geral parecia calma. Mais do que isso, porém, impressionava-o pela sua resistência, imperturbável e fria, sem estar sujeita ao desgaste, à fadiga, à doença física e ao declínio. Tinha provavelmente vinte e cinco, vinte e seis anos, mas não a conseguia imaginar ainda mais jovem do que isso, e por certo nunca viria a ter ar de mais velha. Conservava perfeito domínio sobre si mesma e sobre a realidade exterior.

in “Ubik”
Philip K. Dick

TABACARIA


Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo q ninguém sabe quem é (…) Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, (…) Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo (…), como coisa real por fora, E à sensação de q tudo é sonho, como coisa real por dentro. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. (…) Que sei eu do que serei, eu q não sei o que sou? Ser o q penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos q pensam ser a mesma coisa q não pode haver tantos! Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, (…) Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, q não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... (…) O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha q pode conquistá-lo, ainda q tenha razão.(…) Serei sempre o q não nasceu para isso; Serei sempre só o q tinha qualidades; (…) Crer em mim? Não, nem em nada. E o resto q venha se vier, ou tiver q vir, ou não venha. Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha q não há mais metafísica no mundo senão chocolates. (…) Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com q comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, q é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do q nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. (…) Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo q eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Pq é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E q é rabo para aquém do lagarto remexidamente Fiz de mim o q não soube E o q podia fazer de mim não o fiz. O dominó q vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó q não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar q sou sublime. (…) Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em q foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em q tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em q digo o contrário. Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de q a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (…) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro Campos

Molero disse:

Chegou uma esquadra, e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro. Os camones continuaram a subir a rua, pararam junto do Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a sua harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez um espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, os camones, estóicos, a irem e virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também nunca se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que, de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor-de-rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas, isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino, deu duas voltas lá dentro fazendo parar as máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar as máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca. levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o Metro e Meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raul Pechibeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova, descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bebé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o seu meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o fox-terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da Dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex-Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a Mascarilha. O rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo-de-artíficio de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o rela que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entrar, rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem truncagens, sem braços indiscutivelmente partido, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carrinha do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, é camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets?, não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai o Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão, a Mafalda Capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar as lulas e os carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas com cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechibeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos moveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da Polícia a chegar, o Joaquim Navalhinhas perguntar mas o que é que a Polícia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a pôr os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o polícia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?


in “O que diz Molero”
Dinis Machado

As minhas leituras.. mais antigas..

Ok, ok, não sou tão certinha..
The Pearl - John Steinbeck
Romeo & Juliet - William Shakespeare
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Sense & Sensibility - Jane Austen
Fogo na Savana
Pó Mortal
Pânico a Bordo
A Mafia do Sangue
O Expresso Transiberiano
O Lado Obscuro da Fama
Viagem para a Terra do Fogo
Por Ordem do Tigre
O Perfume das Flores Mágicas
A Especialista
- Heinz Konsalik
Do Amor e Outros Demónios - Gabriel Garcia Marquez
O Maias - Eça de Queirós
Viagens na Minha Terra - Almeida Garrett
Frei Luis de Sousa - Almeida Garrett
Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco
A Sibila - Agustina Bessa Luis
Mensagem - Fernando Pessoa

Zero

Zero

Deixou
Deixou cair
Deixou cair o quê?
Deixou cair o que tinha na mão.
Deixou cair o que tinha na mão e?
Deixou cair o que tinha na mão e
caiu morto.

Ah ah! Deixou cair o que tinha na
mão e caiu morto!

Não tinha
Não tinha o quê?
Não tinha nada na mão.
Não tinha nada na mão?
Não tinha nada na mão quando caiu
morto.

Ah ah! Não tinha nada na mão
quando caiu morto!

Não tinha
Não tinha o quê?
Não tinha onde cair morto.
Não tinha onde cair morto?
Não tinha onde cair morto e caiu
morto na mesma.

Ah ah! Não onde cair morto
e caiu morto na mesma!

Deixou cair o que tinha na mão e
caiu morto. não tinha nada na mão
quando caiu morto. não tinha onde
cair morto e caiu morto na mesma

in “Ascensão de dez gostos à boca”

Alberto Pimenta

A Pastelaria de Cesariny

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny

leituras dos anos 90

Para abrir as hostilidades, seguem as leituras dos anos 90

LOU CARRIGAN – vén a charlar esta noche (?)
JOHN STEINBECK – the pearl (93)
SAM LLEWELLYN – deadeye (jul93)
JEANNE WILLIAMS – no roof but heaven (aug93)
S.K. WOLF – mackinnon's machine (aug93)
BRAM STOKER – dracula (nov93)
MICHAEL CRICHTON – jurassic park (feb94)
RUDY RUCKER – the fourth dimension (mar94)
FRANZ KAFKA – the metamorphosis (jul94)
CARL SAGAN – cosmos (jul94)
GIOVANNI PAPINI – il diavolo (oct94)
H.P. LOVECRAFT – the statement of randolph carter (dez94)
PHILIP K. DICK – ubik (mar95)
CHARLES BAUDELAIRE – mon coeur mis à nu / fusées (mar95)
STEPHEN KING – delores claiborne (apr95)
MILTON K. OZAKI – inquérito (aug95)
CHARLES BAUDELAIRE – fleurs du mal (sep95)
BILL PRONZINI / BARRY N. MALZBERG – night screams (oct95)
GIOVANNI PAPINI – o passado remoto (oct95)
J.W. GOETHE – the sorrows of young werther (nov95)
FYODOR DOSTOIEWSKI – o jogador (nov95)
EDGAR A. POE – histórias de mistério e imaginação (nov95)
FREDERICH NIETZSCHE – o anti-cristo (nov95)
LEON TOLSTOI – a morte de ivan ilych (nov95)
JOHN RUSSO – midnight (apr96)
HELEN L. KAUFMANN – beethoven (96)
GARRY KILWORTH – theatre of timesmiths (96)
STEFAN ZWEIG – caleidoscópio (97)
HOWARD ENGEL – the suicide murders (97)
PADDY CHAYEFSKY – altered states (97)
VOLTAIRE – zadig (oct97)
LUIZ PACHECO – o teodolito (oct97)
LUIZ PACHECO – o libertino passeia por braga, a idolátrica, o seu esplendor (oct97)
MAQUIAVEL – o príncipe (nov97)
SIDNEY SHELDON – the doomsday conspiracy (nov97)
MIGUEL ESTEVES CARDOSO – o amor é fodido (nov97)
MANUEL ALEGRE – che (dez97)
JOHN STEINBECK – to a god unknown (dez97)
VIRGÍLIO MARTINHO – relógio de cuco (dez97)
DINIS MACHADO – o que diz molero (dez97)
NICHOLAS EDWARDS – arachnophobia (dez97)
CHARLES BAUDELAIRE – o spleen de paris (jan98)
ERASMO – elogio da loucura (jan98)
TONY HILLERMAN – people of darkness (feb98)
THOMAS MORE – a utopia (feb98)
H.P. LOVECRAFT – the case of charles dexter ward (feb98)
REMY DE GOURMOND – histórias mágicas (feb98)
H.P. LOVECRAFT – at mountains of madness (mar98)
STANISLAW LEM – ze wospomnien ijona tichego (mar98)
JOHN RUSSO – the night of the living dead (mar98)
BROOKE LEIMAS – the intruder (mar98)
CORNELL WOOLRICH – the bride wore black (apr98)
ELLIS PETERS – monk's hood (apr98)
PETER TREMAYNE – zombie (may98)
ANN RADCLIFFE – the italian (jul98)
ALAN DEAN FOSTER – clash of the titans (jul98)
BORIS VIAN – l'arrache-cœur (jul98)
PATRICK SUSKIND – das parfum (jul98)
VONDA MCINTYRE – the bride (aug98)
STEPHEN KING – the shining (sep98)
VÁRIOS – great tales of the supernatural (oct98)
ROBERT H. HEINLEIN – the door into summer (oct98)
VÁRIOS – pesadelo galáctico (nov98)
MARY SHELLEY – frankenstein or the modern prometheus (nov98)
J. TELL – panteon (nov98)
ALAN DEAN FOSTER – the thing (dez98)
ROBERT BLOCH – twilight zone (dez98)
JAMES KAHN & STEVEN SPIELBERG – poltergeist (dez98)
EDGAR A. POE – the murders in the rue morgue (dez98)
STEPHEN KING – carrie (jan99)
VÁRIOS – o hóspede de drácula (jan99)
IRA LEVIN – rosemary's baby (feb99)
SHERIDAN LE FANU – carmilla (feb99)
JEAN-PAUL BOURRE – le culte du vampire aujourd'hui (mar99)
GUY DE MAUPASSANT – contes fantastiques complets (may99)
TEOPHILE GAUTHIER – avatar (jun99)
ALEXANDRE DUMAS – le meneur de loups (jun99)
VILLIERS DE L'ISLE-ADAM – contes cruels (oct99)
STEPHEN KING – the dead zone (99/00 ?)
CLIVE BARKER – the damnation game (apr00)
PHILIP K. DICK – blade runner (may00)
H.G. WELLS – o homem invisível (mar01)