O amor é fodido!


O amor é fodido. hei-de acreditar sempre nisto. onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido (…) e por que é que fodemos o amor? porque não resistimos. é do mal que nos faz. parece estar mesmo a pedir. de resto, ninguém suporta viver num amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. tem de haver escombros. tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. e um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo.” [...]
“precisava de fugir. era uma necessidade constante. se não fosse o amor, de que poderíamos escrever ou fugir?! eu escrevia-te mentiras que eram quase verdade: que queria fugir para dentro de ti, invadir-te com fúria de te ver ininterruptamente, de não conseguir impedir-me de ficar ali parado a olhar para ti. tu fazias pior. ficavas calada e deixavas-te invadir. atiravas os pulsos para as almofadas antes de eu poder fingir que tos ia prender. mas era bom. nota: era melhor assim. o amor é fodido. nunca sabemos se estamos a dar ou a receber. os teus poemas também eram ricos. transcrevo um de memória, para gáudio de quem nos estiver a ler: «a quem, a quem hei-de-me dar; eu que já soube o que dava e agora não sei mais nada? a quem hei-de dar a verdade que guardo tão mal, tal é o mal que ele me faz: dar-me vida e nada mais.»
escrevemos coisas parvas, perguntas já previamente concebidas para obter respostas rápidas.”


Miguel Esteves Cardoso


Memória..

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
- Hoje sim.
Ela suspirou: - Ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis.(...)
No dia dos meus noventa anos tinha acordado, como sempre, às cinco da manhã. O meu único compromisso, por ser sexta-feira, era escrever a crónica assinada que é publicada aos domingos em El Diario de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: doíam-me os ossos desde madrugada, ardia-me o cu, e havia trovões de tempestade depois de três meses de seca. Tomei banho enquanto o café fazia, bebi uma chávena adoçado com mel de abelhas e acompanhado com dois bolos de cassabe e vesti o fato-macaco de pano de estar por casa.

Memória das Minhas Putas Tristes
Gabriel Garcia Marquez

Mia

O anfitrião levantou-se e chama pela mulher. Reconhecer que os seus poderes são limitados o tornou tenso, precisa de se reabasteer de álcool. O médico faz tensão de se erguer e reencher o copo para o dono da casa, mas este ordena que se detenha. A esposa estava certamente acordada e cumpriria a sua obrigação.

- Parece-me que a Dona Esposinha já adormeceu…

- Ela acorda, ela acorda – e o homem grita num tom marcial: - Esposinha!

Silêncio. A casa dorme. Sue celência apoia-se esforçadamente nos joelhos e vai gemendo enquanto se aproxima da mesa. Serve-se generosamente, e mais generosamente ainda, emborca, de uma assentada, um copo inteiro.Volta a encher o copo, ao mesmo tempo que desaperta o cinto e esfrega a barriga deixada a descoberto. Um poderoso arroto mistura-se com a voz e o administrador é forçado a repetir a fala:

- Sabia que eu posso mandá-lo prender?


Venenos de Deus Remédios do Diabo

Mia Couto