
“precisava de fugir. era uma necessidade constante. se não fosse o amor, de que poderíamos escrever ou fugir?! eu escrevia-te mentiras que eram quase verdade: que queria fugir para dentro de ti, invadir-te com fúria de te ver ininterruptamente, de não conseguir impedir-me de ficar ali parado a olhar para ti. tu fazias pior. ficavas calada e deixavas-te invadir. atiravas os pulsos para as almofadas antes de eu poder fingir que tos ia prender. mas era bom. nota: era melhor assim. o amor é fodido. nunca sabemos se estamos a dar ou a receber. os teus poemas também eram ricos. transcrevo um de memória, para gáudio de quem nos estiver a ler: «a quem, a quem hei-de-me dar; eu que já soube o que dava e agora não sei mais nada? a quem hei-de dar a verdade que guardo tão mal, tal é o mal que ele me faz: dar-me vida e nada mais.»
escrevemos coisas parvas, perguntas já previamente concebidas para obter respostas rápidas.”

