Memória..

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
- Hoje sim.
Ela suspirou: - Ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis.(...)
No dia dos meus noventa anos tinha acordado, como sempre, às cinco da manhã. O meu único compromisso, por ser sexta-feira, era escrever a crónica assinada que é publicada aos domingos em El Diario de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: doíam-me os ossos desde madrugada, ardia-me o cu, e havia trovões de tempestade depois de três meses de seca. Tomei banho enquanto o café fazia, bebi uma chávena adoçado com mel de abelhas e acompanhado com dois bolos de cassabe e vesti o fato-macaco de pano de estar por casa.

Memória das Minhas Putas Tristes
Gabriel Garcia Marquez

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