Arundhati Roy

Arundhati Roy
O deus das pequenas coisas

Momentos como este eram ciosamente guardados pelos gémeos, como pérolas preciosas que iam enfiando num colar (um tanto ralo).

Enquanto os pais se envolviam em braincadeiras sexuais sublimadas com as suas filhas adolescentes e núbeis, Poothana amamentava o jovem Krishna no seu seio envenenado. Bhima estripava Dushasana e banhava o cabelo de Draupadi no seu sangue.

Por trás dos seus óculos de sol mariposa, os olhos inúteis mantinham-se cerrados, embora ela visse a música à medida que ela se desprendia do violino e esvoaçava pela sala como fumo.

A mãe do Camarada Pillai continuava a baloiçar-se e a grunhir. Havia algo de reconfortante na cadência dos grunhidos. Como o bater de um relógio. Um som que mal se ouvia, mas do qual se sentia falta se parasse.

ARUNDHATI ROY – the end of imagination (mar09)
ARUNDHATI ROY – the greater common good (mar09)
ARUNDHATI ROY – the god of small things (apr09)

O que há em mim..

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
-Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos


Leituras..


MIGUEL SOUSA TAVARES – Equador (out08)

JOSÉ SARAMAGO – As intermitências da morte (out08)

GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ – Cem anos de solidão (nov08)

JOSÉ SARAMAGO – Ensaio sobre a cegueira (dez08)

Coisas..

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade



leituras dos últimos tempos

DEBORAH CURTIS – touching from a distance (08)

MIGUEL SOUSA TAVARES – equador (nov08)

JOSÉ CARDOSO PIRES – balada da praia dos cães (jan09)

JOSÉ SARAMAGO – ensaio sobre a cegueira (jan09)

MIGUEL ESTEVES CARDOSO – a causa das coisas (jan09)

JOSÉ SARAMAGO – jangada de pedra (feb09)

MIGUEL TORGA – bichos (feb09)

ANTÓNIO LOBO ANTUNES – os cús de judas (mar09)