coisas


Não sobrava nenhum pátio nem nenhuma quinta, a casa da Calçada do Tojal desaparecera, uma sucursal de banco erguia-se no lugar da palmeira dos Correios, o jardim dos meus pais transformara-se em fachadas e eu pensei, a pagar a corrida, se levariam o meu caixão no elevador ou aos trambolhões pelas escadas, e ao meter a chave à porta as pernas amoleceram, caí de joelhos no tapete, gatinhei no sentido do telefone que não parava de tocar, levantei o braço para o auscultador, o aparelho despenhou-se à minha frente, um cochicho perguntou se era do talho, animais esfolados dependuravam-se de ganchos, sujeitos de avental, cobertos de crostas de sangue, rasgavam pedaços de carne, a empregada cabo-verdeana surgiu da cozinha de ferro de engomar na mão, a carne amontova-se num prato de balança, quis dizer Liga ao médico depressa e articulei Gillermo Tell Amenaza Al Gobernador, um vento agitou as bétulas no interior do meu peito, o meu marido morto veio do quarto de banho, com uma das bochechas cobertas de sabão de barba e a navalha em riste, a certeza de que me deceparia as carótidas obrigou-me a chorar, a empregada marcava um número por cima dos meus soluços, a carne da balança gotejava-me na nuca, alguém batia no apartamento de baixo e afinal era uma artéria do meu pescoço latindo contra a pele, o meu sobrinho anunciou que pensava ser uma quebra de tensão mas suponha mais prudente refazer os exames, e como estávamos em julho reguei-o a ele e aos irmãos com a mangueira do jardim e os miúdos saltavam de prazer, internaram-me no Hospital da Cuf para estudos e análises, e nessa noite acordei com uma mulher aos gritos, acendi a luz, pedi à enfermeira que me trouxesse um espelho e notei que as minhas narinas se haviam afilado como as dos cadáveres nos esquifes.

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