coisas


Não sobrava nenhum pátio nem nenhuma quinta, a casa da Calçada do Tojal desaparecera, uma sucursal de banco erguia-se no lugar da palmeira dos Correios, o jardim dos meus pais transformara-se em fachadas e eu pensei, a pagar a corrida, se levariam o meu caixão no elevador ou aos trambolhões pelas escadas, e ao meter a chave à porta as pernas amoleceram, caí de joelhos no tapete, gatinhei no sentido do telefone que não parava de tocar, levantei o braço para o auscultador, o aparelho despenhou-se à minha frente, um cochicho perguntou se era do talho, animais esfolados dependuravam-se de ganchos, sujeitos de avental, cobertos de crostas de sangue, rasgavam pedaços de carne, a empregada cabo-verdeana surgiu da cozinha de ferro de engomar na mão, a carne amontova-se num prato de balança, quis dizer Liga ao médico depressa e articulei Gillermo Tell Amenaza Al Gobernador, um vento agitou as bétulas no interior do meu peito, o meu marido morto veio do quarto de banho, com uma das bochechas cobertas de sabão de barba e a navalha em riste, a certeza de que me deceparia as carótidas obrigou-me a chorar, a empregada marcava um número por cima dos meus soluços, a carne da balança gotejava-me na nuca, alguém batia no apartamento de baixo e afinal era uma artéria do meu pescoço latindo contra a pele, o meu sobrinho anunciou que pensava ser uma quebra de tensão mas suponha mais prudente refazer os exames, e como estávamos em julho reguei-o a ele e aos irmãos com a mangueira do jardim e os miúdos saltavam de prazer, internaram-me no Hospital da Cuf para estudos e análises, e nessa noite acordei com uma mulher aos gritos, acendi a luz, pedi à enfermeira que me trouxesse um espelho e notei que as minhas narinas se haviam afilado como as dos cadáveres nos esquifes.

das

Tu que cessaste de te deitar com o senhor Esteves desde que a tombose o atacou e se tornou imóvel e sem poder falar, sentado no sofá, o senhor Esteves que te trouxera de Beja quando enviuvou para trabalhares para ele, lhe aqueceres o jantar, lhe limpares o apartamento da Conde de Valbom e ocupares o lado do colchão que a defulta trocara por uma lápide no talhão dos Prazeres, o senhor Esteves que eu conheci ao escoltar-te a buscar a tua mala ao rés-do-chão que habitavas, com a fotografia da finada no oval de crochet, o senhor Esteves, de barba por fazer, que não possuia ninguém senão tu, apertando nos punhos a franja da manta, um homem mais idoso do que eu sou agora, e cujo pescoço eram roscas de pele sumidas no casaco como um cágado se encolhe na sua carapaça, o senhor Esteves com as metades mal ajustadas da face identicas a peças de um puzzle encaixadas à força.

natural

A seguir ao jantar o meu tio levava-me à pastelaria defronte da igreja e eu, com um copo de limonada na mão, assistia à sua conversa com a bronquite dos amigos que cuspiam os pulmões no lenço entre golinhos de café. Os barris de cerveja emitiam suspiram em que a pressão do gás borbulhava. Um grupo de damas pintadas, com brincos de pérolas falsas, compunha as madeixas em torno de um bule de chá, e o meu tio, de cigarro na boca, piscava-lhes o olho a alargar-se, como um pombo nas vastidão do colete.

a ordem

Lisboa, meu amor, eram missas radiofónicas, altarzinhos de Santo António, mendigos e gaitas de beiços de época penosa, cegos encostados aos prédios, cegos de concertina às costas tacteando passeios fora, cegos trágicos à saída dos lausperenes, cegos fadistas acompanhados por espertalhões de patilhas que recebiam as esmolas, cegos ameaçadores que vendiam bugigangas no adro, cegos orgulhosos, que queixo altivo, nos cruzamentos da rua, mulheres cegas, com filhos cegos que não choravam nunca ao colo, cegos bêbados às curvetas entre os palmitos das tabernas, cegos que se suspendiam no ar, como anjos, dependurados dos guarda-chuvas abertos, cegos, pedintes e ciganos em carroças gastas pelos mil caminhos do mundo, em busca de um baldio para a tenda, mas principalmente cegos fitando o nada com a bruma das pupilas, milhares de cegos ocupando os becos, as travessas, os largos, os pátios de casinhas baixas com oficinas de sapateiros e ferradores, cegos a beberem água nos chafariz das mulas, cegos conversando entre si do seu mundo de sombras, cegos, pedintes e ciganos nas quintas do Tojal, roubando o mel das abelhas, legionários e cegos e as damas das pastelarias e policias secretos e os brados dos guerreiros de domingo.