TABACARIA


Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo q ninguém sabe quem é (…) Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, (…) Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo (…), como coisa real por fora, E à sensação de q tudo é sonho, como coisa real por dentro. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. (…) Que sei eu do que serei, eu q não sei o que sou? Ser o q penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos q pensam ser a mesma coisa q não pode haver tantos! Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, (…) Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, q não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... (…) O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha q pode conquistá-lo, ainda q tenha razão.(…) Serei sempre o q não nasceu para isso; Serei sempre só o q tinha qualidades; (…) Crer em mim? Não, nem em nada. E o resto q venha se vier, ou tiver q vir, ou não venha. Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha q não há mais metafísica no mundo senão chocolates. (…) Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com q comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, q é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do q nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. (…) Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo q eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Pq é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E q é rabo para aquém do lagarto remexidamente Fiz de mim o q não soube E o q podia fazer de mim não o fiz. O dominó q vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó q não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar q sou sublime. (…) Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em q foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em q tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em q digo o contrário. Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de q a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (…) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro Campos

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